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29/04/2014

Da terra do crack ao campo de refugiados

Da terra do crack ao campo de refugiados


*Auro Danny Lescher - O Estado de S.Paulo
Há décadas o paulistano tem se acostumado a conviver com um fenômeno bizarro: centenas de pessoas, homens, mulheres e crianças, descalças, cinzas e esfarrapadas habitando um território do tamanho de três quarteirões bem no coração da cidade. De longe se observa um amontoado de zumbis vagando a esmo, ciscando o chão na busca frenética por mais uma pedra de crack.
A droga, que se cheira, se pica, se ingere ou se fuma, é a maneira muitas vezes desesperada que o sujeito tem para alterar a sua percepção sobre o mundo (externo e interno). É, também, um potente anestésico que ameniza a dor de quem vive a memória de uma grande ruptura: os exilados, os imigrantes, os soldados no front, os loucos, os moradores de rua. Podemos até afirmar que, nessas situações extremas, o exílio químico passa a ser uma fórmula eficaz para tornar suportável o insuportável.
Psicologicamente, é muito oneroso para a consciência coletiva e para a de cada cidadão quando somos obrigados a nos adaptar, a tornar "natural" algo que sabemos ser bizarro. Porque todos nós, os paulistanos inseridos e produtivos e os que vivem fissurados na Cracolândia, temos sempre muita fome de dignidade.
Até dois anos atrás, a metodologia prioritariamente utilizada pelos governantes, seja na esfera municipal, na estadual ou na federal, para o enfrentamento desse complexo fenômeno social vinha sendo a da truculência policial, a repressiva. É claro que essa abordagem continua sendo necessária quando estamos a enfrentar o tráfico de drogas e o crime organizado. Mas ela é absolutamente ineficaz para a revitalização daquele território, como os anos têm demonstrado, exatamente porque nega a complexidade da situação.
O Projeto Quixote, do qual sou coordenador, está em campo há 18 anos ajudando crianças e jovens exilados no centro da cidade de São Paulo a estabelecerem novas conexões consigo mesmos e com a sua comunidade e sua família de origem, na maioria das vezes localizada nos municípios da região metropolitana de São Paulo. A palavra-chave da nossa metodologia é "mátria". Um neologismo do poeta argentino Ernesto Sábato. Ele falava que, das experiências demasiado humanas, a que mais o emocionava era a cena do imigrante exilado que, da popa do navio, vê a costa da sua pátria se distanciando, sem ao menos saber se algum dia voltará a reencontrá-la. Tão forte, não deveria se chamar Pátria, mas Mátria.
Em nosso trabalho, esse termo se refere aos inúmeros aspectos físicos e emocionais relacionados à comunidade e à família de origem da criança, mas também a outros aspectos, mais profundos, psicológicos, relacionados à própria construção da identidade.
A metodologia do rematriamento surge da constatação de que essas crianças e jovens nas ruas são refugiados urbanos, à espera de oportunidades de retorno às suas mátrias. Acompanhamos, às vezes por anos, cada um desses pequenos refugiados, tecendo, juntos, sua história atual e passada e os seus desejos futuros (uma espécie de autobiografia autorizada). Acompanhamos também as famílias na conexão com a rede local de atendimento: saúde, assistência social, educação, lazer e cultura.
A Cracolândia é um campo de refugiados informal. É de lá que os exilados gritam, têm lugar, têm visibilidade, saem na mídia, entram na agenda dos políticos e governos. Eles batem à porta do inferno para não sucumbirem às armadilhas que a idade da pedra lhes impõe - o lado primitivo da sociedade que não ousa mudar e o do sujeito, que, sentindo-se e sendo tratado como resíduo, se refugia no crack.
Desde o início do ano passado, algo diferente começou a aparecer: trabalhadores da área da saúde se juntaram aos heróis da assistência social. A agenda do enfrentamento ao crack passou a ser prioridade dos governos. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgou uma pesquisa estimando em 370 mil o número de pessoas que fazem uso do crack no Brasil. Convenhamos, um ponto a mais para a complexidade do problema.
Há ainda muito que caminhar, sobretudo porque a área da saúde também tem a sua truculência. A internação compulsória tem-se mostrado ineficiente, porque, como vimos, o uso do crack na Cracolândia não se trata pura e simplesmente de uma questão de dependência química. Por isso me parece ingênuo o jogo pseudoideológico segundo o qual quem se põe a favor da internação compulsória é contrário à estratégia de redução de danos, e vice-versa. Sejamos coerentes, em vez de pensarmos em salas de uso protegido do crack (como ocorre na Holanda e em outros países), devemos pensar em salas humanitárias, um híbrido de Poupatempo com Cruz Vermelha.
O que estamos acompanhando neste início de ano com o programa Braços Abertos é uma novidade que merece ser celebrada. Oferecer perspectivas de dignidade aos exilados da Cracolândia (bolsa/trabalho, uniforme, comida do Bom Prato, habitação em hotéis da região, etc.) é a metodologia mais eficaz. Trata-se de uma abordagem que poderíamos chamar de humanitária.
Os habitantes da terra do crack não são toxicômanos irreversíveis, mas pessoas que buscam no exílio a afirmação de sua vida e algum retorno às suas mátrias.
Temos a saudável tendência natural de aceitar como verdadeiro aquilo que pode ser enunciado. Trata-se do reencontro tenso e intenso de alguém consigo mesmo, e ser o narrador da própria história é vital para se sentir razoavelmente confortável dentro do próprio corpo. De corpo e alma. Esse reencontro tem que ver com o amor próprio, mãe e pai de todos os amores. Uma boa tradução para a palavra dignidade. Matéria-prima para a narrativa do sujeito, como ser autônomo, único, absolutamente singular, que se tece com uma linha que não separa, aliena nem esquarteja, mas alinhava, define e protege.
*PSICOTERAPEUTA, PSIQUIATRA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO, É COORDENADOR DO
PROJETO QUIXOTE

14/04/2014

MACONHA E O PERIGO DA LEGALIZAÇÃO PARA O MERCADO

MACONHA E O PERIGO DA LEGALIZAÇÃO PARA O MERCADO

legal capital
Vivemos um momento em que a legalização da maconha vem atraindo o mercado. Muitos defensores vêm dizendo que isso é importante para o processo de legalização. Revistas, que criminalizavam os defensores das marchas por apologia, agora só faltam ensinar a plantar maconha.
Mas não estamos na luta há tantos anos para agradar o grande mercado. Lojas que vendem produtos necessários à plantação de verduras e da erva da paz sempre defenderam o autocultivo, como forma de combater essa brutal guerrra às drogas, que nada mais é do que a guerra aos pobres. Queremos pequenos livres comércios, sem monopólios, oligopópolios, cartéis ou quaisquer relações monstruosas de acumulação com uma planta que é, ao mesmo tempo, produção e consumo, fora de alienantes relações de trabalho e exploração.
A maconha no Brasil traz um grave problema ao mercado e ao Estado, pois ela dá em qualquer lugar. A planta é comum, de todos, comumnista, ainda mais nesse maravilhoso país, onde tudo que se planta dá.
O Uruguai estatizou a erva da paz e os Estados Unidos vêm privatizando. Os debates sobre a quantidade permitida para plantar em sua casa violam ambas posições. Se estou em minha casa, nem o Estado muito menos o mercado podem estabelecer o número de plantas que vão nascer em minha propriedade, obviamente desde que não seja um latifúndio.
A planta é comum, este debate devemos travar na Marcha da Maconha, pois somos a Multidão das marchas no Brasil e no Mundo, e não lutamos por décadas pelo mercado nem pelo Estado, e sim pelo comum, que é a planta da paz do Reino de Jah, sem qualquer controle.
Nossa luta não pode ser privatizada, nem estatizada, e não podemos aceitar essa apropriação do comum da planta da paz, pois nunca fomos, nem seremos, massa de manobra, somos a multidão libertária.
-
ANDRÉ BARROS, advogado da Marcha da Maconha e membro da Comissão de Diretos Humanos da OAB/RJ e do Instituto dos Advogados Brasileiros

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13/04/2014

Terapia psicodélica estudo mostra potencial medicinal do LSD

Terapia psicodélica estudo mostra potencial medicinal do LSD
Revista Galileu
Saem os antidepressivos e ansiolíticos, abrem-se as portas da percepção. Um estudo da MAPS (Associação Multidisciplinar Para Estudos Psicodélicos) publicado em janeiro afirma que o LSD, aliado à psicoterapia, pode ser eficaz no tratamento de ansiedade e depressão em pacientes com doenças terminais. Os testes, realizados na Suíça, ainda são restritos — eles envolveram apenas 12 voluntários. Mas trazem as primeiras evidências científicas sobre o uso medicinal da droga desde 1973, quando as pesquisas foram restritas nos EUA.
O sonho hippie estava acabando e as políticas de combate às drogas entravam no seu auge. Sintetizado pelo químico suíço Albert Hofmann, o LSD foi testado em mais de 40 mil pessoas até 1965. Celebridades como o ator Cary Grant participaram de sessões de psicoterapia e expansão da consciência sob efeito do LSD antes dos Beatles o experimentarem. Francis Crick, vencedor do Nobel da Ciência em 1962, iniciou sua pesquisa sobre o DNA com base nas visões de uma viagem de ácido. Psiquiatras das Forças Armadas Americanas ministravam psicodélicos para manipular depoimentos de prisioneiros da Guerra Fria, enquanto os jovens faziam uso recreativo da droga.
Os condutores da nova pesquisa acreditam no potencial do LSD. “A droga interage com neurotransmissores como a serotonina e a dopamina, provocando uma espécie de sonho acordado muito vívido, que leva os pacientes a um profundo contato com suas pendências e ao enfrentamento de seus medos”, afirma o psiquiatra Peter Gasser, coordenador do estudo. Os 12 voluntários passaram por 30 sessões: 22 com uma dose de 200 mg, e oito com a dose placebo de 20 mg. “Devido a repressões na infância, uma das pacientes se queixava de dificuldade para expressar alegria. Durante a experiência, libertou-se a ponto de dançar pela sala e pediu para passar as mãos sobre as costas macias de uma vaca”, diz Gasser.
Não houve efeitos colaterais graves como flashbacks, surtos psicóticos ou ansiedade severa. Só foram aceitos pacientes sem histórico de problemas mentais, como a esquizofrenia. Nenhum medicamento psiquiátrico foi utilizado. “Não indicamos a terapia com LSD a pessoas muito jovens, que ainda não têm repertório de enfrentamento para lidar com algumas vivências”, afirma Gasser.
Rick Doblin, fundador e presidente da MAPS, acredita que novas pesquisas devem apontar alternativas a medicamentos psiquiátricos tradicionais. “As pessoas já demonstram descrença na indústria farmacêutica e tendência à aceitação de outras substâncias para finalidade médica e espiritual. A exploração do subconsciente e da espiritualidade é um direito humano fundamental”, opina. Para ele, a regulação do LSD com finalidade terapêutica é mais fácil que a da maconha. “Temos ótima relação com órgãos como FDA (FoodAndDrugAdministration) e DEA (DrugEnforcementAdministration)”, explica.
Os testes custaram US$ 200 mil e foram subsidiados por simpatizantes. “Pedimos apoio a instituições governamentais e grandes fundos de pesquisa, mas eles consideraram politicamente arriscado. Talvez agora seja mais fácil conseguir”, diz Doblin. A organização também planeja novos estudos legais sobre o uso medicinal do MDMA (ecstasy), maconha, ibogaína e ayuasca para tratamentos direcionados à ansiedade, estresse pós-traumático e dependência química. Os próximos grupos devem ser montados no México e Nova Zelândia.

Retirado de Galileu / Coletivo dar. 
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03/04/2014

Entidade de chefe de programa anticrack do Estado vai gerir hospital para viciados

Entidade de chefe de programa anticrack do Estado vai gerir hospital para viciados

Secretaria da Saúde escolhe organização presidida por Ronaldo Laranjeira para administrar, por cinco anos e ao custo de R$ 114 milhões, futuro hospital na Cracolândia; MPE vê conflito de interesse. Psiquiatra não decide despesas, diz governo

Sem obras. Parte da unidade já deveria estar funcionando
Robson Fernandjes/Estadão
Fabiana Cambricoli - O Estado de S. Paulo
SÃO PAULO - O governo do Estado de São Paulo contratou uma entidade filantrópica presidida pelo psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador do programa anticrack da Secretaria Estadual da Saúde, para administrar o futuro hospital de dependentes químicos da Cracolândia, na região central. A Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), organização social vinculada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), vai receber cerca de R$ 114 milhões, no período de 5 anos, para gerenciar a unidade da Rua Helvetia.
O hospital integra o programa Recomeço, projeto do governo estadual de combate à dependência em crack, do qual Laranjeira é coordenador desde maio do ano passado.
Para o Ministério Público Estadual (MPE), o fato de o psiquiatra ter cargos de comando tanto no governo quanto na SPDM consiste em conflito de interesses. Estado e SPDM alegam, porém, que Laranjeira atua nas duas instituições de forma voluntária, sem remuneração, e que ele não é o responsável por administrar despesas dentro da Secretaria da Saúde nem pela escolha das entidades contratadas pelo Estado para administrar unidades de saúde.
"Do ponto de vista ético, merece uma reflexão maior. (O contrato) É algo que precisaria ser mais bem pensado e investigado. É uma situação muito inusual alguém estar dos dois lados, como contratante e como contratado", afirmou o promotor da Saúde Pública Arthur Pinto Filho, após ser questionado pelo Estado sobre a parceria firmada entre organização social e Secretaria da Saúde.
Como presidente da SPDM desde agosto do ano passado, Laranjeira foi quem assinou o contrato em nome da organização, em dezembro. Pinto Filho disse que, embora não duvide da "idoneidade de Laranjeira", poderá abrir um inquérito para apurar em que condições o contrato foi firmado. "O mais correto seria que ele abdicasse de um dos dois cargos", afirmou.
O professor de Direito Administrativo da Universidade Presbiteriana Mackenzie Bruno Boris tem a mesma avaliação do promotor em relação ao contrato firmado entre SPDM e governo estadual para prestação de serviços na Cracolândia.
"Se ele é coordenador da política anticrack do Estado, tem poder de decisão, assim como tem acesso a informações privilegiadas dentro do governo. Pode até configurar um tráfico de influência. Por ele estar dos dois lados, é difícil garantir que a escolha da entidade tenha sido a melhor opção para o poder público", disse Boris.
Seleção. O edital de convocação para entidades interessadas em administrar o hospital da Cracolândia foi lançado em novembro do ano passado. As entidades deveriam apresentar um plano operacional a ser desenvolvido na Unidade Recomeço Helvetia, que terá leitos para desintoxicação, moradias para dependentes químicos e centro de convivência, entre outros serviços, e será instalada em um prédio vazio no número 55 da via de mesmo nome, no coração da Cracolândia.
O hospital é uma das principais apostas da gestão Geraldo Alckmin (PSDB) para a região dominada pelo crack. Será a primeira unidade da capital a reunir vários estágios de tratamento para o dependente químico, modelo defendido por Laranjeira na área acadêmica. Professor titular da Unifesp, ele é reconhecido como um dos maiores especialistas em dependência química do País.
Atraso. A Unidade Recomeço Helvetia está com as obras atrasadas. A inauguração da primeira ala, um centro de convivência, foi prometida por Laranjeira para fevereiro, mas deve começar a funcionar somente no segundo semestre.
Já a parte hospitalar e as moradias para dependentes, esperadas para maio, deverão ser abertas somente no ano que vem, segundo os prazos firmados no contrato. O Estado foi anteontem ao local onde a unidade será criada e não encontrou nenhum operário. Segundo vigilantes, o prédio, de 11 andares, está vazio há meses e não há previsão para o início da reforma.
Usuário de crack, o mecânico Donizete Garcia de Matos, de 28 anos, afirma que uma nova unidade de saúde na Cracolândia ajudaria. "Quanto mais rápido eles abrissem, melhor. A gente teria mais opção de cuidar da saúde, tentar sair do vício."

Saiba mais, aqui.

27/03/2014

O Transtorno do Vício em Internet

O Transtorno do Vício em Internet

vicio e internet
Por Breno Rosostolato*       

Vivemos a era da informática, das informações livres e da acessibilidade fácil e rápida a elas. As tecnologias se renovam, incessantemente, favorecendo e permitindo o contato das pessoas a todos os assuntos, a todos os lugares e a hora que quiserem. Esta é a internet, o mundo de possibilidades que se veio de fato para ficar e hoje o mundo não existiria sem ela. A internet é o sol no centro deste sistema globalizado que aquece a tudo e todos. Mas acontece que, como tudo nesta vida, a lei criacionista de “causa e efeito” sintetiza uma máxima: tudo que é demais enjoa. Enjoa, mas também adoece. 

Muitos problemas e dificuldades despontaram por conta do surgimento da internet. Problemas que nem ousarei enumerar, mas quando refletimos quais seriam eles, rapidamente identificamos. Admito que muitos já existiam e que a internet só acentuou sua gravidade. Me limitarei a um agravante que recebe pompas de transtorno, reconhecido pela Associação Americana de Psicólogos como uma dependência tão crônica quanto à de substâncias como álcool e cocaína, a Internet Addiction Disorder (Transtorno do Vício de Internet).

O problema afeta mais de 50 milhões de pessoas no mundo, segundo um recente estudo da Universidade La Salle, nos Estados Unidos. No Brasil, as pessoas que sofrem desta dependência chegam a 4,3 milhões. Estes números só tendem a crescer pela maior facilidade de acesso à web e pelo desenvolvimento de novas tecnologias. Acho oportuno mencionar que a nomofobia também é um transtorno relacionado a celulares, smartphones e tablets. Estes são os nomofóbicos. Pessoas que ficam angustiadas quando não podem usar o celular. A impossibilidade de se comunicar usando o celular é sufocante e angustiante. 

O transtorno é associado ao fato de falar a todo o momento com os outros ou por considerar o celular imprescindível para sua segurança, desperta também a necessidade de ficar conectado à internet.  Isso não só é uma realidade, que muitos buscam comprar aparelhos cada vez mais modernos que facilitem o acesso à internet. Os mercados de telefonia móvel, por sua vez, atentos a este movimento, lançam a cada ano modelos mais potentes, com novos recursos e aplicativos.

A preocupação se concentra nos jovens e nas crianças, sempre mais vulneráveis a este tipo de dependência, principalmente pelo surgimento cada vez maior dos jogos “online”. Este desprendimento ao mundo real é o perigo da dependência, que pode fazer com que a pessoa viva baseada na irrealidade. A internet proporciona um prazer imediato, uma satisfação rápida que leva a pessoa desejar repetir a sensação. 

Esta busca pelo prazer imediato é o propósito destes tempos contemporâneos, em que a sociedade é movida pelo prazer próprio e a satisfação de seus desejos. O mal-estar imposto pela realidade pode assim ser atenuada. Muitos não possuem a noção do preço pago para concretizar este desejo desenfreado. Negligenciam suas vidas em prol de uma sensação agradável, mas momentânea. O indivíduo vivencia uma série de experiências agradáveis que incluem desde a possibilidade de abstrair o tempo até um incrível sentimento de poder. Tudo isso a um toque na tecla ou no mouse e que rompe a frágil película do limite e acionando outras dimensões, a fantasia. A escravidão é o preço pago.

Outro ponto que contribui para o vício é a falsa ideia de que você pertence a um grupo. A possibilidade de interagir com todos ao mesmo tempo e até com pessoas de outros países fomenta a fantasia do ciberviciado. O anonimato é outro fator preponderante para que esta fantasia aumente. Se apresentar como quiser, subtraindo em parte ou totalmente o que não gosta em si mesmo, e assim, assumir a imagem que quiser, colocando as máscaras que achar conveniente e sustentar a história que for agradável à pessoa.

As consequências do Transtorno de Vício em Internet faz com que a pessoa aos poucos vá perdendo o interesse na vida e tudo se resuma ao uso da internet. O isolamento emocional e o contato interpessoal ficam prejudicados. A alienação é gradativa e a pessoa tende a ter dificuldades em interagir com o outro que não seja através da internet. Quem precisa usar a internet no trabalho, como instrumento para contatos e práticas profissionais não necessariamente possui a doença. 

O conflito é quando o sujeito começa a ficar inquieto, agitado e bastante incomodado em não ter condições de acessar a rede, o que causa muito sofrimento. Deixar de lado a responsabilidade do dia a dia para ficar conectado é um sintoma evidente da dependência. Carência, insegurança, vida solitária, dificuldade em lidar com frustrações, fobia social, baixa autoestima e depressão constituem o perfil de indivíduos mais propensos a desencadear o transtorno, pois encontra no mundo virtual amparo para o seus conflitos emocionais.

Existem alguns tratamentos que envolvem remédios e psicoterapia para diminuir o uso de internet. A proposta é fazer com que ela substitua a prática por coisas mais importantes na vida, modificando assim os valores do sujeito e aguçando o juízo crítico. Resgate o contato com o outro que não deve ser substituído pela máquina. Restituir as identificações sociais e uma maneira de reconstruir o afeto do sujeito, dando-lhe condições de se libertar desta dependência.

* Breno Rosostolato é psicólogo e professor da Faculdade Santa Marcelina - FASM



Retirado de: CANALTECH.COM


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